Publicidade
Terça-Feira, 22 de Janeiro de 2019
Descrição do tempo
  • 31º C
  • 23º C

Assuntos da Grande Florianópolis e os temas cotidianos das cidades da Região Metropolitana – incluindo resgates diferenciados da memória histórica –, são acompanhados de perto pelo colunista Carlos Damião, que tem mais de 30 anos de vivência profissional.

A Ilha de Santa Catarina sob domínio da Espanha, há 240 anos

Entre 23 e 25 de fevereiro de 1777, uma expedição da Espanha tomou posse da terra. Invasão durou cerca de oito meses

Carlos Damião
26/02/2017 14h50
Fortaleza de Santa Cruz (Anhatomirim) não impediu a invasão dos estrangeiros pela região Norte da ilha - Carlos Damião
Fortaleza de Santa Cruz (Anhatomirim) não impediu a invasão dos estrangeiros pela região Norte da ilha - Carlos Damião

Há exatos 240 anos, entre 23 e 25 de fevereiro de 1777, a Ilha de Santa Catarina foi invadida por uma expedição da Espanha, passando ao domínio daquele país durante pelo menos oito meses. Os espanhóis invadiram a ilha pela freguesia de Canasvieiras e, logo a seguir, declararam-se donos da área insular inteira. Em consequência, as autoridades lusitanas que aqui viviam debandaram para a região continental ou rumaram para o Rio de Janeiro. A Capital do Estado passou provisoriamente para São Miguel, atual município de Biguaçu, até que, em 1 de outubro do mesmo ano, fosse assinado o Tratado de Santo Ildefonso, entre Portugal e Espanha, que devolveu a ilha ao proprietário original. Em troca, Portugal comprometeu-se a não utilizar sua possessão como base naval ou de guerra. O tratado também incluiu a Colônia de Sacramento, correspondente em grande parte ao atual Estado do Rio Grande do Sul, como de propriedade portuguesa. Portanto, o tratado representou a definição de limites territoriais de Portugal e Espanha no continente americano.

Ele vieram para ficar

Os espanhóis vieram para a Ilha de Santa Catarina preparados para ficar. Tanto que as tropas trouxeram sacerdotes, que se espalharam pelas freguesias - um claro sinal da pretensão de longa ocupação, já que os religiosos exerciam o trabalho de educação e evangelização. É preciso ressalvar que a presença de viajantes espanhóis na ilha não era fato recente. Como registra o professor Nereu do Vale Pereira, eles estiveram por aqui no ano de 1500, instalando uma pequena povoação no extremo Sul da Ilha. Seriam, na verdade, os fundadores originais de Florianópolis, porque o bandeirante Francisco Dias Velho viria apenas em 1673, ano oficial de fundação da cidade.

Disputas territoriais

Aqueles - séculos 16 a 18 - eram tempos de muitas disputas territoriais. Quem estuda história sabe que Portugal e Espanha eram os países de vanguarda nas expedições em busca de novas rotas comerciais e de exploração de prata e ouro, resultando na apropriação de territórios que eram ocupados por indígenas. A "descoberta" do Brasil, por exemplo, é muito contestada por respeitáveis historiadores, porque na verdade a América já tinha sido encontrada antes, por Cristóvão Colombo. Tanto que em 1494 foi assinado o Tratado de Tordesilhas, que dividia as terras descobertas e a descobrir na América em duas partes, sendo a área Oeste definida para a Espanha e a área Leste para Portugal.

A Ilha de Santa Catarina, que pertencia aos portugueses, era considerado um ponto estratégico tanto do ponto de vista militar quanto comercial. E essa é uma das explicações para a invasão espanhola.

 Um dos canhões da fortaleza: peças decorativas durante a avassaladora chegada dos espanhóis - Carlos Damião
Um dos canhões da fortaleza: peças decorativas durante a avassaladora chegada dos espanhóis - Carlos Damião


Fortalezas foram inúteis

O sistema defensivo da Ilha de Santa Catarina não funcionou. A ideia das fortalezas era justamente evitar ataques estrangeiros à possessão portuguesa. Elas começaram a ser construídas em 1739, quando o brigadeiro Silva Paes se tornou o primeiro governador do Estado. O triângulo fortificado ao Norte da ilha era formado pelas fortalezas de Santa Cruz (Anhatomirim), Santo Antônio (Ratón Grande) e São José da Ponta Grossa (Jurerê). Foi esse sistema defensivo que fracassou em 1777, ou seja, não impediu a invasão dos espanhóis.

Sobre o episódio histórico, Virgílio Várzea conta em "Santa Catarina: a Ilha": "Sem o menor obstáculo — pois o inimigo fugia! — mal o vento rondara, a frota castelhana abordou a Ilha, fundeando para dentro do Rapa. No dia 23 para 24, Zeballos (Dom Pedro Zeballos, comandante da invasão) saltou em Canavieiras com toda a força de desembarque, sem que nenhum dos fortes da barra do norte o hostilizasse, indo se lhe entregar nesse mesmo dia o tenente José Henriques, comandante da fortaleza da Ponta Grossa. Em seguida, os comandantes dos fortes de Santa Cruz e Ratones os abandonaram, sem dar um tiro. E assim, a 25, os espanhóis ocupavam todas as fortificações, intimando o governador a render-se com toda a guarnição". Conforme o relato do escritor, a esquadra espanhola era “disposta em três divisões, uma armada de seis naus, seis fragatas, sete corvetas e noventa e seis transportes, montando 520 canhões e conduzindo 10.000 homens de desembarque”.

Rendição vergonhosa

Virgílio Várzea narra a vergonhosa rendição (e fuga) dos oficiais e das tropas portuguesas e observa: "Em poucas horas então todo o exército (lusitano), que montava a três mil homens (infantaria, cavalaria e artilharia), passou o Estreito, na direção de São José, em desastrosa corrida. O povo do Desterro, como o dos lugares em volta, sentindo-se abandonado e inerme, lançou-se igualmente, em êxodo tumultuoso, no coice dos fugitivos. Era um espetáculo desolador: senhoras e crianças correndo, aos gritos e como loucas, pelas estradas e atalhos, presas de um pânico terrível".

A clássica obra de Várzea assinala que a evacuação espanhola, após o Tratado de Santo Ildefonso, ocorreu até o primeiro semestre de 1778. Em julho daquele ano, o coronel Francisco da Veiga Cabral da Câmara foi designado governador pela coroa portuguesa.

NOVAS PESQUISAS

Com base na coluna publicada na edição impressa do ND, a professora e historiadora Sara Regina Poyares dos Reis me enviou o seguinte email neste sábado, 25/2:

“Estou em vias de publicar um novo livro em coautoria com um pesquisador de Buenos Aires, livro esse que, entre outras coisas, vai contar verdades sobre a invasão da Ilha em 1777”.

“O sistema defensivo de Silva Paes tanto funcionou, que os espanhóis não ousaram passar entre as fortalezas pois seriam atingidos de qualquer maneira. Cevallos tinha um mapa feito anteriormente por um espanhol, que mostrava os locais das fortificações e não foi burro: desceu onde estava livre. Outra coisa: achamos um diário de um espanhol que estava na esquadra de Cevallos, em arquivo de Buenos Aires, em que o mesmo cita que das fortalezas vieram muitos tiros. Isso vai estar em livro que será editado em português e espanhol, e que será lançado em locais construídos ou com partes construídas pelo biografado no livro: Florianópolis, Buenos Aires e Lisboa”.

Esclareço, ao fim e ao cabo, que o texto publicado se baseou em pesquisas existentes. E será ótimo, sem dúvida, contarmos com mais uma contribuição valiosa da professora Sara Regina para a historiografia de Santa Catarina.

Publicidade

1 Comentário

Publicidade
Publicidade