“Dez da minha família já se foram nessa estrada”, diz filho de vítima do acidente na BR-280

Acidente na noite de domingo matou mais cinco pessoas da família de Luiz Pinto, em Araquari

Rosana Rosar
Rosana Rosar


Joinville

Centenas de pessoas se reuniram no galpão da Igreja São José, no bairro Caixa d’Água, em Guaramirim, na tarde de ontem no velório das cinco pessoas da mesma família mortas num acidente na BR-280, em Araquari, na noite de domingo (6). Hoje, às 9h, parentes e amigos terminam de se despedir do operador de máquina Marcos José Oliveira, 29 anos, da mulher, a auxiliar de produção Adriana Pinto, 22, de Gabriel, de três anos, filho do casal, e dos irmãos gêmeos, o vigilante Constantino Roque Pinto (pai de Adriana) e o aposentado Antônio Arnor Pinto, 60.

 

Reprodução Luciano Moraes/ND
Constantino, Adriana, Marcos, Gabriel e Antônio iam a Cascavel (PR) no velório de um parente

 

Os enterros serão no Cemitério Municipal de Guaramirim. Enfrentando a dor, ontem um dos dois filhos de Constantino Roque, o vendedor Luiz Carlos Pinto, 41, contou que não é a primeira vez que a família perde entes queridos na BR-280. “Dez da minha família já se foram nessa estrada. Já tinha perdido dois irmãos”, lamentou. Em 1996, o irmão Adir e o primo Jair, ambos com 21 anos, estavam em um Fusca que colidiu com outro veículo próximo ao Pavilhão de Eventos, em Guaramirim. “Meu primo estava dirigindo e morreu na hora. Meu irmão ficou 83 dias internado em coma e não resistiu”, relembrou.

Dois anos depois Ademir, 19, também irmão de Luiz e filho de seu Constantino, conduzia uma moto na BR-280 quando foi atingido por uma carreta. Em 2004, outra tragédia. “Meu primo Gilmar estava indo trabalhar de moto, um bêbado ultrapassou e bateu de frente com ele, que também morreu”, detalhou Luiz. No domingo (6), o vendedor voltou de Barra Velha quando ouviu a mãe contar que a família tinha ido ao enterro de Irene Pinto, 72, irmã de Constantino e Antônio, em Cascavel, no Paraná. “A mãe disse que tentaram me ligar para que eu fosse e não conseguiram. Aí o pai pediu pro Marcos ir dirigindo”, explicou.

A família saiu de casa por volta das 19h15, passou num posto de combustível para abastecer e seguiu viagem em direção ao Estado vizinho. O acidente ocorreu por volta das 20h. Somente perto da meia-noite Luiz foi informado da tragédia e foi ao IML (Instituto Médico Legal) de Jaraguá do Sul para reconhecer os corpos. “Mas nem tive coragem. Só peguei os documentos deles lá”, completou. O metalúrgico Júlio Pinto, 20, que já tinha perdido dois irmãos na rodovia, lembrou do pai, o aposentado Antônio, com carinho. “Era uma pessoa especial, humilde, honesta, sempre fazia tudo certinho”, contou chorando.

Vizinhança em choque

Há 25 anos, a família Pinto mudou de Santa Izabel do Oeste, no Paraná, para Santa Catarina e se fixou em Guaramirim. Há 19 anos morando em residências próximas no bairro Caixa d’Água, irmãos, filhos e netos estavam sempre muito em contato com os vizinhos. Ontem, muitos deles estavam em estado de choque com a tragédia. A dona de casa Maria Fritzel, 56, contou com tristeza sobre episódios trágicos já vividos pela família. “A dona Lúcia já tinha perdido dois filhos. A menina era a única filha dela. Eu a conhecia desde os cinco anos. Sempre foi muito querida”, destacou.

Como foi o acidente

O carro em que as vítimas viajavam, um Cross Fox, com placas de Guaramirim, invadiu a pista contrária no km 42,7 da BR-280, próximo à fazenda da WEG, e bateu de frente contra um caminhão caçamba, também de Guaramirim. O automóvel foi arrastado até o barranco às margens da estrada ficando completamente destruído. Uma criança de três anos foi projetada para fora do veículo. Gabriel Henrique de Oliveira estava preso à cadeirinha. Ele foi resgatado em parada cardiorrespiratória e morreu antes de chegar ao Hospital Municipal Santo Antônio.

As demais vítimas ficaram presas às ferragens do carro. Bombeiros Voluntários de Araquari e Guaramirim precisaram esperar o guincho retirar o caminhão de cima do Cross fox para iniciar o resgate.

Os corpos das vítimas foram levados para o IML (Instituto Médico Legal) de Jaraguá do Sul. O velório estava previsto para começar às 14h, na Igreja São José, no bairro Caixa d’ Água, em Guaramirim, mas por causa da gravidade dos ferimentos – o caixão de Marcos precisou ficar fechado – começou apenas às 17h20. O motorista do caminhão, César José Soares, 41 anos, não se feriu na colisão. (Thaís Moreira)

Duplicação é urgente

Nascida em Guaramirim e morando há 11 anos às margens da BR–280, a comerciante Maria Roseli Dias, 44 anos, acredita que a duplicação da rodovia é urgente para evitar acidentes como o que vitimou os cinco membros da mesma família. “Essa BR está muito perigosa. Já deveria ter sido duplicada. Sempre tem acidente. E a travessia é perigosa até a pé para ir à igreja”, criticou. A vizinha, Rosa Zanluca, 49, agricultora, também já perdeu parentes em um acidente na estrada. “Perdi minha prima, os avós e a tia dela num acidente há seis anos, em que o carro pegou fogo. Morre bastante gente. Precisam fazer algo”, apelou.

Publicado em 08/04/14-08:30