Artesãos unem estética e sustentabilidade para criar acessórios com matérias-primas naturais

Eles utilizam o que a natureza oferece para criar biojoias, com flores, sementes, fibras naturais, cerâmica e até pequenos animais

Marciano Diogo
Marciano Diogo
Repórter geral do jornal Notícias do Dia.


Florianópolis

Rosane Lima/ND
Bee Rosa, da Sweetopias. Colares, anéis e braceletes com flores de verdade


Da alimentação à moda, produzir e consumir de maneira consciente é um conceito compartilhado por cada vez mais pessoas. Nesta área, que está crescendo tanto quanto a própria ideia de desenvolvimento sustentável, se abrem novos nichos como o de criação das biojoias. A biojoia é um acessório produzido com material proveniente diretamente da natureza, como plantas, flores, sementes, cascas, frutos, conchas, madeira, ossos, penas e escamas. “As matérias-primas são extraídas sem causar prejuízos à natureza. Além de não agredir o meio ambiente, essas peças trazem consigo múltiplas possibilidades para a criação artística. É um processo criativo que envolve cores, elementos e energia. É uma alquimia que cria”, conta a artesã Bee Rosa, criadora da marca Sweetopias, que produz colares, pulseiras e anéis com flores.

Bee Rosa conta que começou a estudar botânica em 2013, para então criar a marca de biojoias no ano seguinte. Para produzir as peças, ela cultiva flores específicas, como sempre-vivas, hibiscos, perpétuas e rosas, e depois as instala em uma pequena redoma de vidro. “É um processo longo, tenho de esperar às vezes até seis meses depois de a flor morrer para ela secar e desidratar da maneira esperada. Depois, aplico o selador, que faz com que ela não fique com a aparência de morta”, explica a gaúcha radicada em Florianópolis. A criadora da Sweetopias conta que as biojoias da marca são carregadas de simbologias. “É como um ‘minimundo’, um ecossistema em uma pequena estrutura. Sinto que as pessoas procuram estar cada vez mais próximas da natureza. Claro que há o ‘feeling comercial’, mas valor é diferente de preço”, opina.

O artista plástico Carlos Velloso também observou nas biojoias um mercado criativo em potencial. Junto à parceira Camila Mattos, abriu em 2015 a marca Studio Uruz 74, que tem seu ateliê localizado na Capital e cria adereços estéticos a partir do encapsulamento de flores e animais como borboletas, vespas, libélulas, aranhas e até cavalos-marinhos. “Antigamente a técnica era chamada de incrustação. Para tal, usamos uma resina reconhecida por suas características plásticas, que conserva essa matéria-prima natural. É um trabalho manual e personalizado, são peças únicas, e quando são feitas com insetos costumam provocar ainda mais o olhar”, afirma o também artesão e pintor paulista Carlos Velloso.

Rosane Lima/ND
Encapsular flores e pequenos animais é a técnica do Studio Uruz 74, de Carlos Velloso e  Camila Mattos


O casal – que está a frente das peças do Studio Uruz 74 – acrescenta ainda que nenhum animal é morto para a criação dos colares, anéis, chaveiros e objetos de decoração da marca. “São insetos doados ou que nós mesmos encontramos na natureza. Tal fato fortalece ainda mais a característica de sustentabilidade de nossa produção. Buscamos trazer poética para algo que já existe naturalmente”, conclui Camila Mattos, que também é paulista e mora em Florianópolis.

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Andreza de Oliveira, da Emaye Artesanato, reaproveita elementos como escamas de peixe na criação


Criatividade e sustentabilidade
Também criado em 2015 na Capital, o Coletivo Criativo Cardume é focado na produção artesanal de adereços feitos com plantas, penas, madeiras, cristais e insetos. Integrados pelos artesãos Mariangela Machado, Pedro Paiva Neto, Bolívar Gomes, Jorge Gil, Caroline Dal Castel e Thais Leal, o grupo trabalha com orgonites, que é a junção entre resina e cristais. Os brincos, anéis e colares também trazem trabalhos manuais de crochês, peças esculpidas em cerâmica e lapidação de pedras. “A joia se torna um elemento de encontro entre o ser humano e a natureza. E transformamos essa energia da natureza em amuletos, que carregam proteção. São peças que ultrapassam o conceito estético”, explica o artesão gaúcho Pedro Paiva, que está à frente do Cardume, coletivo que tem seu ateliê sediado em Florianópolis.

A marca de biojoias Emayê Artesanato, da catarinense Andreza de Oliveira, tem como matéria-prima escamas de peixes, sementes e fibras naturais como a palha. “Biojoia vem da palavra vida, significa joia viva. Elas servem para voltar o olhar das pessoas para o que a natureza tem a oferecer para nós”, conta a artesã, que não utiliza nenhum produto químico na criação dos colares, pulseiras, brincos e coroas. “Faço a coloração das peças através de infusões como chá de camomila, de beterraba, de casca de cebola e até borra de café”. Entre as sementes utilizadas na Emayê, está a do butiá, do guarapuvu, do cinamomo, a lágrima de Nossa Senhora, a Pedra da Lua e até o caroço do abacate. “A pesquisa de materiais também faz parte do processo criativo, eu crio a partir do material que tenho em mãos”, explica Andreza de Oliveira.

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MIlene Mendes Cook, da marca Mila Cook, produz peças tendência em cerâmica


Olhar para o mercado
Foi a motivação comercial que fez com que a designer florianopolitana Milene Mendes Cook criasse em 2016 uma linha de peças produzidas com cerâmica. A marca Mila Cook traz colares com peças geométricas produzidas com argila. Os cordões dos colares são feitos de algodão orgânico. “Há uma macrotendência de mercado que está fazendo as pessoas voltarem a procurar coisas mais naturais. Isso passa por todos os segmentos, da alimentação à moda. E essa tendência se reflete também na indústria joalheira contemporânea”, explica Milene. A designer conta ainda que o processo de produção das biojoias da Mila Cook dura até três meses. “É preciso levar as peças para o forno, para depois esmaltá-las e aquecê-las novamente. Eu gosto da argila porque ela tem uma textura maleável que dá uma grande possibilidade para criação, além do custo financeiro da matéria-prima ser mais barato”, opina Mila.

A Crua Design, que também tem seu ateliê em Florianópolis e atua na produção deste segmento, tem como matéria-prima a madeira. A marca produz colares, pulseiras e anéis com formatos geométricos. A designer Germana Lópes, que está à frente da marca de acessórios, explica que o conceito de sustentabilidade também serve de mote criativo para criação da Crua. “Nossas madeiras são 100% reutilizadas. Coletamos o material em marcenarias e entulhos. Além disso, para o acabamento também utilizamos cera de carnaúba, que é um material natural”, conclui a designer Germana. 

Da terra para o corpo - conheça marcas de biojoias localizadas na Grande Florianópolis:

Rosane Lima/ND
Sweetopias – www.instagram.com/sweetopias e www.hierobox.com/lista/box/0021, tel. 48 99013310

 

Rosane Lima/ND
Studio Uruz 74 – www.instagram.com/studiouruz74 e studiouruz74@gmail.com, tel. 48 91195296 / 48 91691703

 

Bruno Ropelato/ND
Emayê Artesanato – artesanato.emaye@gmail.com, tel. 48 98452055

 

Bruno Ropelato/ND
Mila Cook – www.milacook.com.br, tel. 48 99425555

 

E mais:

Coletivo Criativo Cardume – www.cccardume.com, tel. 48 98236044

Crua Design – www.cruadesign.com e cruadesign@gmail.com, tel. 48 99883607

Apuyá – www.flickr.com/apuyabiojoias

Publicado em 26/03/16-11:00

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