Música instrumental tem cenário promissor em Florianópolis

A qualidade da música é unanimidade, mas o gênero ainda conquista seu espaço na cidade

Carolina Moura
Carolina Moura


Florianópolis

Marco Santiago
Diogo de Haro, Alegre Corrêa e Cristiano Ferreira representam diferentes gerações de músicos que vivem na capital catarinense


Florianópolis — Com uma graduação e mestrado em Jazz no currículo, Felipe Coelho teve sua formação no berço do estilo musical, o Sul dos Estados Unidos, e vem conquistando seu reconhecimento com turnês e discos gravados. Alegre Corrêa tem uma extensa discografia e um Grammy na prateleira, frutos de uma carreira de 38 anos. Em comum, além da música, eles têm a residência: Florianópolis. Junto a outros músicos de diferentes gerações que por motivos divergentes vivem na capital catarinense, eles formam um cenário de música instrumental com grande potencial.

 

Para o professor de musicologia Acácio Piedade, da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), o cenário está ficando mais promissor, mas a evolução é lenta na sua opinião. Falta espaço, incentivo e visibilidade. A unanimidade entre acadêmicos, artistas e produtores é uma: a música instrumental que se produz em Florianópolis é de alta qualidade.

“Eu lembro até hoje o primeiro dia que eu escutei Charlie Parker, Hermeto Pascoal. Pensei ‘que coisa maluca esse som, eu preciso tocar isso’”, conta Leandro Fortes, integrante do Quarteto Rio Vermelho e egresso do curso de música da Udesc. Essa é a reação que se espera do público que ainda não está familiarizado com a música instrumental, de procurar conhecer mais. As oportunidades de contato estão espalhadas pela cidade, em bares como Black Swan, Casa de Noca, Café del Sur, Coisas de Maria João, entre outros, que abrem o espaço na programação.

“Há alguns anos tinha só o Café dos Araçás [que fechou], se contava em uma mão os locais. Sem dúvida a cena está crescendo e tem espaço para essa moçada toda”, considera Coelho. Mas nem todos têm o mesmo otimismo. O pianista Diogo de Haro, por exemplo, se apresenta em teatros da cidade e acredita que o alcance é restrito. “O público para esse tipo de música é proporcional à população, e a cidade é muito pequena ainda”, considera.

 Para Piedade, falta um local em Florianópolis que tenha boa estrutura para receber shows de Jazz. Eventos como o Jam Festival, realizado no ano passado, e o Floripa Instrumental, que integrou a programação gratuita da Maratona Cultural, preenchem uma lacuna e dão mais visibilidade ao gênero. “É preciso dar acesso para o ouvinte ouvir uma coisa diferente”, afirma o saxofonista Maycon de Souza, que aplaude a iniciativa.

Fortes, que está gravando o primeiro disco solo, pretende também começar um projeto para levar a música instrumental a locais públicos de Florianópolis. “Está indo a passos pequenos, aqui não é uma cidade em que a arte está instalada já. O legal disso tudo é que a gente pode criar o cenário.”

Ouvir para poder educar

Por 21 anos a residência de Alegre Corrêa foi Viena. De volta ao Brasil, o músico fincou raízes em Florianópolis, onde quer capturar a cena musical da cidade em um documentário. Guitarrista e percussionista com influências de jazz e música brasileira, ele crê que é preciso formar o público da música instrumental. “Eu acho que música, e arte, não é uma questão de gosto. É uma questão de educação”, diz.

Maycon de Souza, que além de tocar o saxofone é coordenador do programa de educação musical em Palhoça, partilha da opinião. “Quando a pessoa sabe o que está ouvindo ela começa a ter mais senso crítico. Isso a longo prazo vai criar um público para ouvir música instrumental”, acredita. Corrêa pretende fazer isso através de seu documentário, que em sua produção inclui o espetáculo “Inverso – trajetória musical de Alegre Corrêa”, em que ele sobe ao palco do TAC com diversos convidados no dia 22 de março para tocar músicas de seu longo repertório.

O público ainda está descobrindo

Cristiano Ferreira mora em Florianópolis há sete anos, e daqui sai para cumprir sua agenda de shows em cidades como São Paulo, Curitiba e Porto Alegre. Mas em suas apresentações locais, que acontecem geralmente duas vezes ao mês, ele é descoberto por um público que ainda não sabia que sua música existia.

”O Blues tem uma coisa interessante. Imagina-se uma música triste, mas quando o pessoal vê a gente tocando, vê que é dançante, é alegre”, conta ele, que já ouviu de várias pessoas em Florianópolis que sua música é muito boa, mas era antes desconhecida para elas.

Diferente do Jazz, o Blues de Cristiano conta também com o canto. Para Diogo Valente, estudante da Udesc que também se dedica ao gênero, a letra torna a aceitação da música mais fácil. “Eu não faço só instrumental porque acho que o publico se identifica mais quando tem voz”, observa, apesar de considerar que o viés instrumental essencial. “No blues uma das particularidades é o improviso. Apesar de ter a parte cantada também, a parte instrumental é tão importante quanto”.

Noites instrumentais

Segunda-feira: Black Swan Pub (R. Manuel Severino de Oliveira, 592, Lagoa da Conceição, Tel.: 3234-5682),  entrada R$ 5

Terça-feira: The Double Seven (R. Bocaiúva, 2198, Centro, Tel.: 3207-8827), entrada R$ 20 masculino, R$ 10 feminino
Quinta-feira (última do mês): Casa de Noca (Av. das Rendeiras, 1176, Lagoa da Conceição, Tel.: 3238-5310), entrada R$ 10 até 0h, R$ 15 depois
Fins de semana: Coisas de Maria João (R. Cônego Serpa, 57, Santo Antônio de Lisboa, Tel.: 3338-1937), programação variada

Publicado em 19/03/12-14:41