Lembranças da ilha: os souvenirs que levam cultura e arte de Florianópolis para o mundo

Repletas da história local e da cultura nativa, as lembranças de Florianópolis são feitas por mãos talentosas de artistas da terra

Pedro Santos
Pedro Santos


Florianópolis

Janine Turco/ND
Pepê faz flores, molduras, cortinas, tudo utilizando conchas e restos de ostras

A caixinha de madeira, a canoa açoriana, o ímã de geladeira, o boneco de cerâmica. Olhando assim, parecem simples souvenirs que os turistas compram para presentear amigos e familiares. Um olhar mais aprofundado, porém, revela que por trás da simples lembrança de quem foi visitar a cidade, estão objetos cuidadosos, feitos por mãos de artistas talentosos e com um conteúdo cultural muitas vezes esquecido.

Lembrancinhas de Florianópolis estão por toda a ilha. São objetos de vários tamanhos e adaptados para os mais diferentes bolsos. A maior parte celebra os pontos turísticos da capital catarinense em cenas que trazem, por exemplo, a pesca da tainha no Pântano do Sul, as bruxas de Franklin Cascaes e a impávida ponte Hercílio Luz, antes das obras de restauração.

O artesanato catarinense pode ser encontrado principalmente em dois lugares típicos da cidade, na Casa da Alfândega, no Centro, e na Casa Açoriana - Artes e Tramoias Ilhoas, em Santo Antônio de Lisboa, além dos próprios ateliês dos artistas. Só que a concorrência não está fácil.

“Existem lugares que estão vendendo coisas made in China”, conta João Otávio Neves Filho, o Janga, proprietário da Casa Açoriana. “Já vi uma ponte feita de ferro com os dizeres: ‘Flolianópolis’. É o fim do mundo.”

Ainda assim, há quem sobreviva fazendo uma arte de grande repercussão, espalhadas por lugares onde os criadores das obras nem sequer conseguem imaginar.

Janine Turco/ND
Nas mãos de João Olíbio, caules de bananeira viram imagens da cidade

João Olíbio, o homem da bananeira

 No alto de um morro próximo à Praia do Meio, em Coqueiros, João Olíbio vê o mar enquanto trabalha. Em sua mesa fica um amontoado de caules secos de bananeira, matéria-prima para os quadros, arandelas, caixinhas, luminárias e igrejas em miniatura que ele cria partir de uma técnica que desenvolveu sozinho. “Olha isso aqui, pode virar um bom céu”, diz apontando para uma mancha escura da madeira.

O ex-pedreiro que queria ser artista trocou o cimento pela bananeira, usada para recompor cenários da comunidade ribeirinha e imagens da ponte Hercílio Luz. “Não quero que a ponte morra antes de mim. Senão acaba meu trabalho.”

Saiba mais: Ateliê de João Olíbio, tel.: 3249 – 0918

Cerâmicas culturais

Amontoados pela casa-ateliê de Eduardo e Raquel estão centenas de bonecos de argila. Em sua maioria são santos e personagens do boi-de-mamão, mas há também bruxas de Franklin Cascaes. O trabalho é intenso e começa cedo. Depois de moldar a argila, eles têm que deixá-la secar para, em seguida, levar ao forno à lenha para aí sim virar cerâmica. Por fim, as obras são coloridas com cores fortes e vibrantes, que remetem à cultura popular.

“Fazemos um tipo de arte cultural, tem a preocupação de vender, é claro, mas também de contar a história dos costumes da ilha”, explica Eduardo de Sousa, que trabalha como professor de Geografia em uma escola no Saco dos Limões. “Um de nossos maiores orgulhos é saber que existem peças nossas em lugares que nem imaginávamos, como na Alemanha e nos Açores.”

Saiba mais: Ateliê de Eduardo e Raquel, tel.: 3225-7098

Janine Turco/ND
Ao lado da esposa Raquel, Eduardo conta a história do boi-de-mamão por meio das cerâmicas

Os cavalinhos de Antônio

 Hoje, a notícia pode chocar. Antônio Scarabelot, 76 anos, começou a trabalhar como carpinteiro aos cinco anos de idade. “Se meu pai estivesse vivo, estaria hoje na cadeia, não é?”, diz, bem-humorado. Os anos dedicados ao ofício lhe ensinaram a aprimorar cada vez mais a arte de polir, montar e colorir objetos que, como bons souvenirs, estão espalhados pelo mundo.

“Não há país que não tenha algum objeto que eu fiz”, orgulha-se. O principal destaque das obras de Antônio são os célebres cavalinhos de madeira, revestidos com tecido de chita, uma influência do pai que fazia brinquedos para crianças usando apenas madeira e palha.

Saiba mais: Ateliê de Antônio Scarabelot, tel.: 3242-5607

 

Arquivo: Cristiano Andujar/ND
Foi com o pai que Antônio aprendeu a fazer os tradicionais cavalinhos de madeira e chita

A arte que vem do mar

 Do oceano é que vem a inspiração para o trabalho de Lupércio Veríssimo, mais conhecido como Pepê. Há 15 anos, ele dava aulas para o primário e conheceu a mãe de um aluno que fazia peças de artesanato com conchas do mar. Pepê gostou da ideia e começou a praticar, ele mesmo, com os objetos que encontrava na areia, de conchas a restos de ostras. O hobby virou ofício e hoje, ele trabalha no Costão do Santinho Resort, Norte da Ilha, oferecendo oficinas para os hóspedes e vendendo souvenirs.

“Meu trabalho vem do mar e também por isso é fundamental saber preservar”, conta Pepê enquanto monta uma flor colando várias conchas. “Um dos diferenciais que eu aplico ao trabalho é a personalização para cada cliente”, explica. Ao buscar as conchas nas praias, o artista observa o ciclo biológico de cada espécie. “Tudo para evitar prejudicar o meio ambiente, que afinal de contas é a verdadeira obra de arte.”

Saiba mais: Oficina de Pepê no Costão do Santinho Resort, tel: 8416-6161

Publicado em 19/02/12-13:29