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Quinta-Feira, 29 de Setembro de 2016
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O espelho sem rosto

Adolescente queimada pelo ex-namorado sai do hospital e aguarda por justiça

Aline Torres
Florianópolis
Debora Klempous/ND
Com 40% do corpo queimado, Pâmela evita se olhar no espelho

 

Os medos de Pâmela são o encontro com o espelho. E com o ex-namorado Thiago Silva das Flores, 27, que após atear fogo no seu corpo, roubando a beleza que ostentava aos 16 anos: longos cabelos negros, olhos verdes, pele bronzeada, foi para casa da mãe em Canoas –RS. Enquanto a menina contrariava os prognósticos médicos, sobrevivendo, Thiago postava no facebook as amarguras de “amar e não ser correspondido” e as peripécias como “matador de bandido”, na atribulada função de policial militar – embora a corporação assegure que Thiago nunca tenha trabalhado para PM.

O envolvimento com Thiago foi para aquietar a dor deixada pelo primeiro namorado. Mas em seis meses de relacionamento, Pâmela foi agredida três vezes: com spray de pimenta durante um show; estrangulada dentro do Hospital Regional, onde foi internada após tentativa de suicídio ingerindo uma cartela de Rivotril; e no dia 30 de agosto. Três Boletins de Ocorrência foram registrados – sem resultados.

Às 11 horas do dia 30, Pâmela foi até a Rua Eurico Gaspar Dutra, no Estreito, onde Thiago havia alugado uma kitinet para o casal, sabendo que a namorada desejava a separação. Mesmo após insistências, Pâmela demonstrou convicção pelo término do namoro. Thiago pegou um galão de álcool que estava embaixo da cama e um isqueiro azul, ensopou os cabelos de Pâmela com álcool. Pôs fogo.

 “Tentei apagar as chamas com as mãos, por isso, elas perderam os movimentos. Então, ele segurou minha mão esquerda, sussurrou: ‘agora vai embora, vagabunda’, enquanto jogava mais álcool e fogo sobre meu corpo. Gritei por socorro. Nessa hora, aspirei as chamas que queimaram meus órgãos internos. Saí correndo para rua, queimando viva, os vizinhos tentavam me apagar, lembro que trouxeram um colchão. Desmaiei nele”. Essa é sua última lembrança até recobrar a consciência dia 17/10.

No colchão, Pâmela foi levada pelo Samu (Serviço de Atendimento Médico de Urgência), para o Hospital Universitário, Florianópolis. Ficou 70 dias interna na unidade de queimados, com 40% do corpo em carne viva. Superou infecções severas, descarnações e a avaliação clínica: 60% de chance de óbito, 40% de recuperação.

Dia 9, recebeu alta pela iminência de infecção hospital e pela negligência da assistência social do HU. Pâmela vive numa minúscula casa de madeira improvisada, ladeada pelo esgoto, nos confins do nada, em Biguaçu. A mãe, o padrasto e os quatro irmãos sobrevivem com orçamento mensal de mil reais. Não sobra dinheiro nem para compra dos seus esparadrapos. 

A ONU, o casamento da delegada e a casa da mamãe

Dia 25 foi eleito pela ONU (Organização das Nações Unidas), o Dia Internacional de Luta contra a Violência sobre a Mulher, com referência no assassinato, das irmãs Mirabal - Pátria, Minerva e Maria Teresa, a mando do ditador Leônidas Trujillo, da República Dominicana. Mas a data não deve ser comemorada em Santa Catarina.

Desde janeiro de 2011, 64 mulheres foram mortas pelos parceiros no Estado, segundo a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito. São aproximadamente 20 mil averiguações instauradas pela Polícia Civil envolvendo violência doméstica – com resolução em apenas 20% dos casos. Cerca de seis mil precisaram de atendimento médico, como Pâmela, que encarra a liberdade de Thiago como um demônio.

O temor de Pâmela, no entanto, nada contribui para a agilidade do caso. O inquérito que investiga a tentativa de homicídio estava na 3° DP (Delegacia de Polícia), de Florianópolis, que cobre a região do Estreito. Mas, de acordo com as informações da delegacia, o inquérito tinha sido transferido para Biguaçu, onde mora a família da adolescente. Na delegacia de Biguaçu informaram que o caso estava com a DP de Palhoça, que informou que estava com São José, que justificou que deveria estar em Biguaçu, onde os investigadores relembraram que o caso tinha sido encaminhado para a 6° DP, de Florianópolis. Na sede da Polícia Civil, situada no bairro Agronômica, quem conduz o caso é a delegada Ana Silvia Serrano, que casou. Até seu retorno da lua de mel, no dia 12 de dezembro, as investigações ficarão paradas.

Na conversa por telefone, a mãe de Thiago confidenciou que o filho estava morto. Fato desmentido pelo Batalhão da Polícia Militar de Canoas. De acordo com um soldado que se anunciou com amigo de Thiago, ele reside com a progenitora, que também o sustenta, no setor 1, quadra W, casa 21, no bairro Guajuviras.

Pâmela precisa de ajuda

A casa de Pâmela precisa de reformas, urgentes;

Para que as cirurgias plásticas tenham êxito, Pâmela deveria estar usando malhas compressivas (face, tórax, pescoço, membros superiores) há 15 dias. Elas permitem que a pele enxertada não enrugue;

A família não tem recursos para comprar bloqueador solar fator 60 e 80 e o óleo Dersany.

Pâmela não tem ventilador, que provoca bolhas em sua pele.

Contato: Silvana da Silva Hoffmann (mãe de Pâmela)

91257074.

32967528.

 

Matéria publicada dia 25/11/12

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