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Sexta-Feira, 30 de Setembro de 2016
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Construída para desenvolver o Norte da Ilha, SC-401 é a rodovia mais perigosa de Santa Catarina

Com crescimento não planejado, rodovia adquiriu características de via urbana e sofre com falta de planejamento

Felipe Alves
Florianópolis

Projetada para acompanhar o progresso e ligar o Centro de Florianópolis ao Norte da Ilha, a estrada que hoje recebe o nome de SC-401 surgiu ainda na década de 1930. Marco para o desenvolvimento da região, a construção consolidou a transformação urbana de Canasvieiras e de outros balneários. O crescimento rápido e desordenado, porém, fez crescer também o número de moradores e empreendimentos ao longo da rodovia. O acelerado desenvolvimento e a falta de investimentos dão à SC-401 um vergonhoso título: a rodovia estadual mais perigosa de Santa Catarina. Em parceria com a RICTV Record, o Notícias do Dia apresenta reportagens que mostram o crescimento e os problemas e apontam as soluções para o futuro da rodovia.

Marco Santiago/ND
Trecho Norte da SC-401, entre Canasvieiras e Centro, se transformou em rodovia urbana


A construção da SC-401 foi responsável por projetar o crescimento rumo ao Norte. Deixou de ser apenas o caminho do Centro às praias para despontar como o trajeto do empreendedorismo. Em suas margens foram erguidos empreendimentos inovadores, tecnológicos, shopping center, prédios comerciais e teatro, e passou a ser endereço da sede administrativa do governo catarinense. Com o rápido crescimento, a segurança e a mobilidade urbana foram deixadas de lado.

Para chegar aos bairros residenciais do Norte da Ilha ou às empresas ao longo da rodovia, até 60 mil veículos trafegam em um único dia no ponto mais crítico, próximo à entrada do bairro João Paulo, segundo dados do Plamus (Plano de Mobilidade Urbana Sustentável da Grande Florianópolis). Além de ser a rodovia estadual mais movimentada, a SC-401 lidera também o ranking da rodovia mais perigosa do Estado, sendo palco do maior número de acidentes em estradas estaduais, de acordo com a PMRv (Polícia Militar Rodoviária).

Concebida como uma rodovia, que originalmente tem a função de ligar dois pontos e dar fluidez ao trânsito, a SC-401 deixou de exercer somente este papel e tem adquirido características de uma via urbana. Desta forma, para solucionar os problemas, é preciso também a integração de diversos órgãos. Dividida em quatro trechos, a SC-401 vai do Norte ao Sul da Ilha. O primeiro e mais importante tem 19 quilômetros, entre Canasvieiras e o elevado do Itacorubi, sob  responsabilidade do Estado. A partir deste ponto vira avenida Beira-Mar Norte, sob responsabilidade do município. A rodovia volta a ser SC-401 do túnel Antonieta de Barros até a Base Aérea, mais uma vez municipal.

Foco em desenvolver o Norte da Ilha

A ideia de abrir uma estrada para ligar a ponte Hercílio Luz até a praia de Canasvieiras surgiu do ex-governador Hercílio Luz. Ele deslumbrava a estrada quando o maior símbolo catarinense começou a ser erguido, em 1922. Esse seria o caminho para levar o desenvolvimento econômico até o Norte da Ilha.

O que era sonho passou a ser realidade sete anos mais tarde, no governo de Adolfo Konder (1926-1930). Nascia a rodovia Virgílio Luz, que seria remodelada na década de 1970 com um novo traçado e batizada de José Carlos Daux – precursor do turismo local – para então ser conhecida como SC-401. Antes disso, moradores e comerciantes só tinham duas formas de chegar ao Centro: de barco ou a cavalo.

Em 1972, o geógrafo e pesquisador da história de Florianópolis, José Luiz Sardá, testemunhou a inauguração da rota do polo turístico na Capital. “Desde 1918 o governador Hercílio Luz demonstrava interesse em criar estações balneárias na região Norte da Ilha. Tinha em mente que a abertura de uma estrada seria um marco histórico de grande importância ao desenvolvimento da região”, afirma. “Ele tinha em mente que a implantação do projeto de turismo na Ilha dependia fortemente de um novo acesso rodoviário entre a cidade e o balneário”, conclui.

O crescimento da região fez surgir a necessidade de duplicar a rodovia. Um trecho foi duplicado entre 1995 e 1998 e, em dezembro de 2011, foram duplicados outros 6,6 quilômetros, do trevo de Ratones até Canasvieiras.

Características perdidas

Com o crescimento às margens da rodovia nos últimos 20 anos, a SC-401 tem perdido sua função inicial e tem adquirido características de via em área urbana. De acordo com José Lelis de Souza, doutor em engenharia de transportes pela USP (Universidade de São Paulo), rodovias estaduais são construídas para ligar cidades e para dar fluidez ao trânsito com baixo índice de interrupções. A via urbana tem circulação mista de veículos, pessoas e ciclistas, por isso tem obstáculos, como passarelas, semáforos e faixas de pedestres.

Com o número crescente de empreendimentos e da alta concentração de pessoas às margens da rodovia, a SC-401 tem agregado alguns dos traços de vias urbanas. “Acredito que estas rodovias cumpriram o objetivo político na época, de contribuir para o desenvolvimento da Capital, de povoamento das áreas e de bairros. Hoje a via se tornou uma área que exigiria mais passarelas, passagens de pedestres, entradas e saídas de carros. Ou seja, características de vias urbanas. Mas tecnicamente não se coloca em rodovias semáforos, faixas de pedestres e outros obstáculos”, explica Souza.

Estatísticas alarmantes

Do início de 2014 a 28 de março de 2016 a SC-401 teve 1.516 acidentes. O número é o mais alto entre as rodovias estaduais de Santa Catarina. A segunda colocada, a SC-405, no Sul da Ilha, teve 915 acidentes neste mesmo período. Em número de acidentes com mortes, a SC-401 também é líder disparada: são 29 mortes neste período contra cinco na SC-405.

Para o chefe de operações da PMRv, major Mauro Rezende, os números são resultado da falta de estrutura e também da imprudência de quem circula no local. Com estes números, a SC-401 recebe o título de rodovia estadual mais crítica de Santa Catarina. A constatação é feita por meio do cálculo da UPS (Unidade padrão de severidade), feito pela PMRv segundo método do Denatran (Departamento Nacional de Trânsito) e Ministério dos Transportes.

O método leva em conta o número de acidentes sem vítimas, com feridos e com mortes em um determinado trecho. Cada dado recebe um peso conforme a gravidade e um resultado final por trecho. Entre todas as rodovias estaduais, este sistema classifica a SC-401 como a mais violenta e, em seguida, está a SC-405.

Entenda o cálculo da UPS (Unidade padrão de severidade)

Acidente com danos materiais: peso 1

Acidente com feridos: peso 5

Acidente com mortos: peso 13

UPS = (acidente danos materiais x 1) + (acidente com feridos x 5) + (acidentes com mortos x 13)

Fonte: Setor de Estatística do CPRv/Deinfra

Números da SC-401 (trecho de Canasvieiras à Base Aérea)

ESPECIFICAÇÃO                         2014        2015         2016*

Acidentes com vítimas             246           211           63

Acidentes sem vítimas              501          453           42

Total de acidentes                     747          664           105

Veículos envolvidos                 1.418        1.269       407

Número de feridos                    319             262          92

Número de mortos                     16               11            2

*Período de 1º de janeiro a 28 de março

Fonte: Setor de Estatística do CPRv/Deinfra

Números da SC-405 (trecho do trevo da Seta ao trevo do Erasmo)

ESPECIFICAÇÃO                         2014        2015         2016*

Acidentes com vítimas             133           151           30

Acidentes sem vítimas              299          250           52

Total de acidentes                     432          401           82

Veículos envolvidos                    868        814           163

Número de feridos                    169           186          37

Número de mortos                     4               1               0

*Período de 1º de janeiro a 28 de março

Fonte: Setor de Estatística do CPRv/Deinfra

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