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Terça-Feira, 27 de Setembro de 2016
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A menina que perdeu o rosto

Adolescente de Biguaçu é queimada pelo namorado

Aline Torres
Florianópolis

Pâmela não tem mais rosto. O fogo derreteu seus traços, como se fossem feitos de vela. Respira. Come. Defeca...por tubos. Na última quinta-feira, Pâmela tinha olhos verdes, longos cabelos pretos, pele bronzeada. Tinha também 16 anos. Agora não tem mais idade. Na sala 1A da UTI do Hospital Universitário, em Florianópolis, o tempo não existe. Há seis dias, Pâmela desconhecia Ilze Korting. Agora será incluída no mapa onde a pesquisadora traça a violência contra mulheres em Santa Catarina, como a 35° vítima de tentativa de homicídio ou como a 60° mulher morta pelo parceiro, em 20 meses de estudo, desde janeiro de 2011. A dúvida oscila como a vida de Pâmela, sem igualdade: 60% chance de óbito, 40% de recuperação.

Divulgação
Pâmela era vaidosa e adora se fotografar, conta sua mãe Silvana
Pâmela Sabrina da Silva Padilha é filha de Silvana Hoffmann, 32 – evangélica, mãe de cinco filhos, desempregada. O pai mora em Lajeado, no Rio Grande do Sul. Quando foi visita-lo no verão, conheceu Thiago da Silva Flores, 27, que se intitulava sargento da PM (Polícia Militar). Em poucos dias, namoravam. Com o compromisso vieram cobranças: Pâmela largou a escola e o trabalho como auxiliar de padaria. Em sete meses fez três perfis no facebook: o primeiro em março, com 88 amigos; o segundo em abril com 44; o terceiro em maio, com apenas um, Thiago. Na foto a adolescente aparece com o rosto coberto. Para a mãe se queixava de infelicidade, para os amigos dos dramas da relação amorosa. Era prisioneira na própria casa.

A história de Pâmela é semelhante à de outras mulheres. Muitas outras. Desde janeiro de 2011 até setembro, 17.501 inquéritos envolvendo violência doméstica foram instaurados pela Polícia Civil no Estado – 3219 resultaram em prisões. Foram 4.922 atendimentos na rede hospitalar. Os que resultaram em óbito não foram incluídos na lista de incompleta das 28 delegacias especializadas que monitoram os crimes em Santa Catarina – com 31 registros de assassinato, enquanto Ilze Korting aponta 59 e o Instituto Sangari, 56.

Assassinato premeditado

Nas fotos do perfil virtual, Thiago ostenta símbolos da PM rio-grandense e uma série de fotos de cadáveres. Mortos em embates. Segundo, a instituição ele nunca integrou as forças armadas. Mas Thiago usava do status para amedrontar a família de Pâmela, que queria afastá-lo da garota, após dois espancamentos e muitas ameaças. Usou a influência, também, para entrar no Hospital Regional de Florianópolis, onde a adolescente foi internada após ingerir uma cartela de rivotril. No quarto hospitalar, ela foi estrangulada, mas os enfermeiros a socorreram a tempo. Na ocasião foi registrado o primeiro Boletim de Ocorrência, vieram mais dois, sem resultado. O casal reatou a relação quando Thiago se envenenou com raticida.

Na quinta-feira, dia 30, Thiago disse para Pâmela que se mataria se ela não fosse morar com ele no apartamento no bairro Estreito, alugado há três dias. Meio-dia, Pâmela entrou. Dez minutos depois contou a vizinha – fumaça; lágrimas; saiu correndo pelo pátio, queimando. “Ele vai me matar, vai me matar”, gritava.

No hospital, Silvana reconheceu a filha pelos dentes. “Saio daqui com a cabeça estourando. O que vai acontecer? Qual o futuro dessa menina? Vai ficar cega? Surda? Como será o futuro dela? Ela adora se fotografar, é vaidosa. E agora não tem mais rosto. Como será quando ela olhar para o espelho?”. As noites de Silvana tornaram-se longas. E se o telefone tocar?

 A mulher que mudou o Código Penal

Casos de violência contra mulheres eram punidos com penas alternativas. Como aqueles que condenam a violência aos animais. Mas a persistência da enfermeira Maria da Penha Maia Fernandes mudou o quadro. Espancada diariamente pelo marido durante seis anos, Maria foi baleada, afogada e eletrecutada pelo conjuge. Ficou paraplégica.

Após denuncia o marido de Maria da Penha depois de 19 anos de julgamento ficou dois anos em regime fechado. A demora e a pena branda fez com que Maria procurasse a OEA (Comissão Interamericana de Direitos Humanos). Com a pressão da instituição o Código Penal Brasileiro foi alterado – agressores são presos em flagrante e a denúncia pode ser feita por outra pessoa. Dia 7 de agosto a lei completou seis anos.

 

Matéria publicada 5/9/2012

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