Lobão, cachorro da raça akita, espera pelo dono que morreu há mais de dez anos

Conhecido da vizinhança do Rio Tavares, Sudeste da Ilha, o solitário Lobão adotou a rua para viver

Carol Macário
Carol Macário


Florianópolis

Janine Turco / ND
Lobão recebe água, comida e carinho da vizinhança, mas não aceita outra casa e nem outro dono

 

Impossível contar a história de Lobão sem recorrer ao clichê: o cachorro é o melhor amigo do homem. Até depois da morte. Há mais de dez anos o cão da raça japonesa akita, mais parece um lobo branco, enorme e dócil, espera a volta do seu dono que nunca vai voltar. Ele é conhecido da vizinhança da servidão Vilmar Sotero de Farias, no Rio Tavares, Sudeste da Ilha. Solitário, ele adotou a rua para viver até o dia em que espera reencontrar seu melhor amigo.

Há versões diferentes para a história de Lobão. A mais contada é a de que ele pertencia a um morador da rua que morreu num acidente de carro. Contam que a viúva tentou ficar com o cachorro, mas ele pulou do caminhão de mudança no dia de ir embora e voltou para a rua onde morou desde sempre.

“O nome verdadeiro ninguém sabe”, diz Mirilene Xavier, 25, proprietária de um mercado no começo da rua, cujo deque de madeira em frente à porta costuma servir de cama para o animal à noite. Lobão é o apelido que os moradores deram a ele. Durante o dia, ele prefere ficar do outro lado da rua, debaixo de uma árvore, onde cava um buraco e refresca-se do calor. Manso e amigável, ele adora carinho. “Só não gosta de cachorro preto. Aí ele vai atrás.”

Muitos moradores já tentaram adotá-lo, mas como é característico da raça – os akitas são possessivos com relação aos donos e território –, Lobão prefere ficar só. “Muitos tentaram ficar com ele. Mas não fica, não gosta de ficar preso”, comenta o produtor Rodrigo Câmara Franco, 33.

Adorado pela vizinhança, Lobão é gordo e bem alimentado. E tem frescuras e horários regulados para comer. Todos os dias, às 6h30, uma senhora da rua de cima leva comida e água fresca. O almoço e o jantar ficam por conta do casal Rose da Silva, 51, e Carlos Antônio da Silva, 56. Eles moram há nove anos na servidão Sotero José de Farias, transversal à Vilmar Sotero de Farias. Pontualmente às 12h e depois no final da tarde ele aparece no portão. “E se a gente não atende ele late”, diz Silva. O segredo? Churrasco.  Carne e osso à vontade. Silva assa carne a mais no final de semana de propósito, e o que sobra eles separam em porções diárias para Lobão.

Mas ultimamente ele anda cansado. Ninguém sabe ao certo a idade dele, mas pelos olhos e textura do pêlo, presume-se que já está velho. “Não sei se agüenta mais um inverno”, diz Mirilene.

Lealdade canina no cinema e na vida real

Uma história parecida com a de Lobão foi imortalizada pelo cinema em 2009. Em “Sempre ao seu lado”, o ator Richard Gere interpreta o caso real de um professor universitário japonês que encontra um filhote akita e acaba adotando-o. O cachorro passa a acompanhá-lo todos os dias até a estação de trem, e o espera na volta do trabalho para casa, até o dia que o professor não volta mais. Pelos nove anos seguintes o animal espera pelo dono. A história virou lenda no Japão.

Em Edimburgo, capital da Escócia, Booby, um cão da raça skye terrier, ficou conhecido no século 19 por cuidar do túmulo de seu dono, John Gray, vigia noturno que morreu de tuberculose em 1858. Bobby só saía do cemitério para buscar comida ou abrigo nos dias mais frios. Ele morreu em 1972 e, um ano mais tarde, moradores erguerem uma estátua em homenagem ao cão. O monumento é um dos mais visitados da cidade.

Diário de repórter: presente de Natal

Muitos afirmam que coincidências não existem, que na verdade o mundo é sincrônico. Quando cheguei ontem à redação do jornal, ainda antes de checar a pauta do dia, contei a meus colegas meu presente de Natal: na noite do dia 24 de dezembro, em meio à confraternização familiar, recebemos uma visita inesperada. Um enorme cachorro branco percebeu o portão aberto e foi entrando pela casa, de mansinho, cansado, até aconchegar-se próximo à roda de conversa. Sem reação, só podíamos oferecer carinhos. Ele nos acompanhou durante toda a noite, como se quisesse mesmo só celebrar. No dia seguinte desapareceu pelo mesmo portão por onde entrara. Era o Lobão, que surgiu na noite de Natal como um presente e símbolo de amizade verdadeira. 

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Publicado em 26/12/12-10:07