Cinco anos após a Política Nacional de Resíduos Sólidos, Florianópolis só recicla 7% do lixo

"O resíduo urbano ainda é o patinho feio da política de saneamento no Brasil", afirma presidente da Comcap, Marius Bagnati

Rafael Thomé
Rafael Thomé


Florianópolis

“Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social”. As palavras de Luis Fernando Veríssimo, no conto “O lixo”, sintetizam a relação entre os cidadãos e os resíduos, mas também apontam para a motivação que levou o governo federal a criar a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), em agosto de 2010, por meio da Lei 12.305. Cinco anos depois, houve evolução da gestão de resíduos?

 

Marco Santiago/ND
Em Florianópolis, os quase 500 mil habitantes geraram 177 mil toneladas em 2014

 

Hoje, os brasileiros produzem quase 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos (no ano passado foram 78,5 milhões) – o equivalente a 387 quilos por habitante –, segundo a Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais) divulgados no Panorama 2014. O índice de cobertura da coleta dos resíduos chega a 90%, mas o país ainda precisa avançar na destinação do lixo, já que quase metade disso (41,6%) acaba em lixões ou aterros inadequados.

Em Florianópolis, os quase 500 mil habitantes geraram 177 mil toneladas em 2014 e a coleta cobriu 92% deste total, de acordo com a Comcap (Companhia de Melhoramentos da Capital), sendo que todo o descarte foi feito em aterros sanitários ou industriais. Além do recolhimento do lixo nas ruas, o órgão busca sensibilizar os habitantes para que a geração de resíduos seja reduzida. “Nos últimos 12 anos, a população de Florianópolis aumentou 28% e os resíduos produzidos aumentaram 65%. Somos uma sociedade com poder aquisitivo cada vez melhor e o consumo desenfreado é o grande problema”, afirmou Antônio Marius Bagnati, presidente da Comcap.

A preocupação de Bagnati também fez parte da elaboração do PNRS, que tem como um dos pontos fundamentais o fomento à redução de geração de resíduos e o cuidado com o descarte irregular. Além deste, três aspectos norteiam a lei: fechamento dos lixões; implantação da logística reversa (as embalagens, uma vez descartadas, ficam sob responsabilidade dos fabricantes, que devem criar um sistema para reciclar o produto); e destinação apenas de rejeitos para os aterros sanitários (resíduos devem ser reciclados). 

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Florianópolis está longe da situação ideal

Apesar de Florianópolis apresentar bons índices de reaproveitamento de resíduos em comparação a outros municípios brasileiros, ainda está longe do ideal. Atualmente, é reciclado quase 7% do lixo recolhido na cidade, taxa muito abaixo do considerado ideal. “O resíduo urbano ainda é o patinho feio da política de saneamento no Brasil. O ideal é que apenas 15% seja jogado fora e o restante seja aproveitado como matéria-prima”, afirmou o presidente da Comcap.

A ampliação da coleta seletiva faz parte do planejamento do órgão, mas as atenções ainda estão voltadas para a coleta convencional. Atualmente, 70% do recolhimento do lixo é feito de porta em porta, 22% é feito em lixeiras comunitárias e 8% do município não tem atendimento.

Para a equipe de coleta, o principal desafio é cobrir as chamadas áreas críticas – geralmente, comunidades em morros de difícil acesso. “Em muitos locais, o pessoal faz o recolhimento utilizando tapetes, é uma coisa quase desumana. São 87 toneladas por dia de materiais coletados dessa forma”, relatou Bagnati.

No recolhimento, os funcionários da Comcap descem os morros com uma lona ou piscina inflável vazia, onde colocam as sacolas de lixo, até o ponto em que o caminhão está parado. “É um serviço cansativo. Tem que subir escadaria e descer com uma lona passando em todas as lixeiras. Às vezes, a lona rasga e dá um trabalho tremendo, porque o lixo cai pelo lado. No fim do dia, dói muito a panturrilha, o joelho e a coluna”, contou Ednei Rodrigues, 47, gari há 14 anos.

 

Responsabilidade dividida

Um dos instrumentos mais importantes da PNRS é o conceito de responsabilidade compartilhada. O lixo que produzimos é uma questão ambiental e, como o ambiente é um bem de uso comum, a responsabilidade é de todos. “Se a geração [de resíduos] é coletiva, a solução também é coletiva. Não pode jogar a responsabilidade só em um órgão ambiental, empresa ou técnico. Cada um tem sua parte no processo”, alertou Paulo Eduardo Antunes, pesquisador, mestre em Engenharia Ambiental e criador do projeto Marbras et Mundi.

Para o presidente da Comcap, um dos maiores problemas enfrentados pelo país é o descompromisso das pessoas com os resíduos que produzem. “Aquele cara que senta na beira da praia com uma garrafinha de água... Por que não leva de volta? É uma questão de comportamento, de consciência das pessoas. A cidade é suja quando as pessoas sujam”, afirmou Bagnati.

No terreno em que fica a Comcap, no Itacorubi, está localizada a ACMR (Associação de Coletores de Materiais Recicláveis). A associação, responsável pela reciclagem dos resíduos recolhidos pela coleta seletiva de Florianópolis, acredita que o panorama poderia estar melhor se os habitantes se sensibilizassem com relação à gestão dos resíduos. “A maioria não tem noção do problema que isso causa. Se colocar a mão na consciência, vão ver o bem que [cuidar do lixo] faz ao meio ambiente, como pode evitar alagamentos, etc. Cada um tem que fazer sua parte”, disse Volmir Rodrigues dos Santos, 36, presidente da ACMR. 

Publicado em 08/08/15-09:00