Paciente com superbatéria recebe alta de hospital

Deficiente mental, debilitado por doença na próstata, foi infectado pela KPC

Aline Torres
Aline Torres


Florianópolis

Marco Santiago/ND
Maria sempre cuidou do filho que é deficiente, mas não sabe como lidar com a KPC

Lindolfo José da Silva, 62 anos, foi um dos infectados pela KPC (Klebsiella Pneumonia Carbapenemase), no hospital goverrnador Celso Ramos – onde já foram confirmadas seis mortes relacionadas à doença. A superbactéria está “colonizada” no organismo de Lindolfo, um homem debilitado por uma doença na próstata, que corre o risco de virar uma infecção. Mesmo assim, Lindolfo recebeu alta  do setor de isolamento hospitalar e foi mandado para casa. Deficiente mental, ele estudou na Apae  (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) desde criança.

A responsabilidade pelo  tratamento dele foi atribuída à mãe, que tem 91 anos e não dispõe de informações adequadas sobre o micro-organismo, e não tem dinheiro para bancar as medicações. O Secretário de Estado da Saúde e o médico infectologista do Estado garantiram que esse é o procedimento padrão, mas não ignoram o risco da família ser contaminada.

Lindolfo foi encaminhado para o Celso Ramos para a colocação de uma sonda na bexiga. Ele ficou hospitalizado dois dias, num quarto coletivo. Depois, foi mandado para casa, com KPC, segundo a família.

No dia 13 de fevereiro, a irmã de Lindolfo, Luzia Schussler, 61, recebeu uma ligação da equipe do hospital avisando que ele teria que ser imediatamente internado, pois o exame de cultura coletado anteriormente tinha identificado a bactéria. Na unidade, foi isolado e tratado com Polimixina B, um dos únicos antibióticos que agem sobre a superbactéria. Depois de oito dias foi mandado novamente para casa.

Além de Lindolfo, outros 12 pacientes com a Klebsiella “colonizada” no organismo - bactéria resistente a antibióticos – receberam alta. O infectologista da Secretaria de Estado da Saúde, Fábio de Faria, informou que esse é o procedimento padrão e que cabe às famílias vistoriarem os doentes que tiveram alta, caso tenham sintomas de debilitação. E complementa: “Qualquer paciente colonizado pode ter uma infecção”.

 Senhora de 91 anos cuidará de Lindolfo

O protocolo do Estado é motivo de desgaste e preocupação para Maria Reginalda da Silva, mãe de Lindolfo. A senhora de 91 anos é uma vítima potencial da Klebsiella, segundo explicações do governo, pois apresenta quadro de imunodepressão. Além da idade avançada, tem um longo histórico de doenças.

Ela também não tem informações para lidar com o caso. Não sabe como se contrai a superbactéria, não usa luvas e não higieniza a casa da forma correta. “Me falaram para separar tudo dele, louça, roupas, mas não tenho preparo para cuidar dele do jeito certo. Só tenho um banheiro e ele dorme no meu quarto”, contou Maria.

Da aposentadoria, Maria recebe dois salários mínimos, cerca de R$ 1.244. Mas só neste mês, os medicamentos e exames chegaram perto deste valor. Lindolfo está tomando seis remédios, entre antibióticos e analgésicos.

Apesar da deficiência, o filho sempre foi ativo: “Ele limpava a casa, fazia comida, me ajudava como podia. É meu grande companheiro, mas agora dá pena de ver”, contou a senhora, emocionada. E complementa: “Se soubesse que o Celso Ramos era assim, nunca teria levado ele lá”.

Luzia está indignada pelo fato do hospital não atender integralmente o irmão, já que ele contraíu a bactéria lá dentro. E denuncia a higiene da unidade: “Lá tem essa bactéria da imundície. Os funcionários quase não lavam o chão, não trocam lençóis. Pingou sangue da sonda do Lindolfo no chão e ninguém limpou”.

 Governo não acompanha família dos infectados

A família de Lindolfo quer fazer o exame que detecta a KPC. Mas o Estado não oferece esse atendimento, segundo o secretário da Saúde, Dalmo Claro de Oliveira.

Nem mesmo com o risco dos familiares se contaminarem pelo convívio com os pacientes colonizadores da bactéria, que receberam alta do Celso Ramos.

Fábio de Faria explicou que não há como fazer esse atendimento. “Se houve algum pecado nesse caso, foi o médico liberar o paciente para ser cuidado por uma senhora”, afirmou.

 

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Publicado em 03/03/12-08:50