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Assuntos da Grande Florianópolis e os temas cotidianos das cidades da Região Metropolitana – incluindo resgates diferenciados da memória histórica –, são acompanhados de perto pelo colunista Carlos Damião, que tem mais de 30 anos de vivência profissional.

Memória de Florianópolis: o progresso que matou o Miramar

Neste domingo, completam-se 41 anos da demolição de um dos mais belos símbolos da região central. Adolfo Zigelli produziu na ocasião um texto memorável, que a coluna resgata graças a um leitor

Carlos Damião
24/10/2015 10h00
Acervo Carlos Damião/ND
Quatro símbolos de Florianópolis: Miramar, ponte, Mercado Público e o Hotel La Porta
Acervo Carlos Damião/ND
O Miramar no traço inconfundível do mestre Fossari, bico de pena da década de 1970
Carlos Damião/ND
Tributo no local em que ficava o trapiche: prova de que demolição não era necessária


Incorporando-se ao debate sobre preservação do patrimônio histórico em Florianópolis, inclusive a conclusão das obras na Ponte Hercílio Luz, o leitor Alzemi Machado mandou email para a coluna lembrando que o dia 25 de outubro – este domingo – assinala os 41 anos de derrubada do Trapiche Municipal, conhecido popularmente como Miramar. Juntou à mensagem o texto do jornalista Adolfo Zigelli, lido no Vanguarda, lendário programa de rádio que era transmitido todos os dias, ao meio-dia, pela Rádio Diário da Manhã (hoje CBN-Diário). De fundo musical, o “Rancho do Amor à Ilha”, hino da cidade composto por Zininho.

* * *

"Informe confidencial: ontem à tarde morreu o Miramar. Ainda bem que lhe pouparam de uma agonia lenta das mortes dolorosas e lhe desfecharam em um golpe só: rápido e certeiro. O progresso matou o Miramar. Foi em nome dessa palavra mística e incorporada ao pensamento médio vigente que o Miramar tombou. Sem um gemido e sem nenhum protesto destroçado pela máquina. Sobre as areias compurgadas do aterro espalharam-se os restos do seu corpo esquartejado, sem que ao menos as antigas águas amigas lhe lambessem as feridas sangrantes. Flores rubras se abriram no seu velho peito cansado e por elas jorrou o sangue de muitas gerações. Nenhuma lápide, nenhuma inscrição. Ontem, morreu o último símbolo da Ilha".

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Fui ao meu arquivo buscar a entrevista que fiz com o ex-governador Colombo Machado Salles, em 6 de janeiro de 2005, publicada no jornal A Notícia em 15 de março do mesmo ano, quando a segunda ponte completou 30 anos de construção. Colombo foi o responsável pela construção da nova travessia, depois de ter implantado o aterro da baía Sul, que incluiu a demolição da Ilha do Carvão e do Miramar.

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Eis o trecho da entrevista em que Colombo Salles menciona o caso do Miramar:

“O fim do Miramar é motivo para lamentos na Capital. Como é que isso ocorreu?

Colombo Salles – Ali não dava para chegar, era lodo puro, não dava para usar. Quando a maré subia, chegava nas lojas. Sou muito criticado por causa do Miramar. Mas o Miramar caiu, não foi derrubado. Era um trapiche coberto, não tinha estilo, não tinha nada. Era frequentado por pessoas sem muito conceito. À noite ninguém ia ali. Cheguei a limpar o local, fiz várias exposições, não ia ninguém, porque quem frequentava não tinha bom conceito. Quando veio a draga, a estrutura foi abalada. Muitos dos que criticam o Miramar nem conheceram o trapiche”.

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O fato é que a derrubada do Miramar significou uma alteração significativa no cenário urbano, brutalmente agredido pela implantação do aterro, que afastou o mar do Centro e adulterou nossa identidade histórica, nossa vida marítima tão próxima da vida cotidiana durante séculos. Fosse hoje, e não nos tempos em que a ditadura militar impunha o que quisesse à administração pública, é muito provável que a segunda ponte não fosse construída ali, muito menos o aterro. E quem sabe o Miramar ganhasse uma revitalização completa, transformando-se num museu, restaurante, café ou centro cultural?

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É curioso, na entrevista de Colombo Salles, a justificativa da má frequência no Miramar para a derrubada do belo e estiloso trapiche. Fosse hoje, com certeza o governo e a prefeitura teriam que demolir os prédios do Ipase (Praça Pereira Oliveira), das Diretorias (Rua Deodoro), da Alfândega e muitos outros... Simplesmente para acabar com a frequência de moradores de rua e consumidores de crack.

Coluna...

Até a década de 1980, a coluna social mais lida nos jornais era a do Cartório Salles, que publicava seus editais de títulos para protesto no jornal O Estado, desvelando o mundo de aparências de Florianópolis. Tive essa sensação quando li, tarde da noite, na quinta-feira, a lista dos maiores devedores de tributos municipais, divulgada pelo vereador Lino Peres (PT) nas redes sociais.

... social

De A a Z, a lista dos devedores de IPTU e ISS é um painel muito abrangente da sonegação na capital catarinense, com destaque para uma parte considerável dos setores hoteleiro e da construção civil. Curiosamente, muitos empresários que costumam tripudiar o poder público, do plano federal ao municipal, têm suas empresas no rol de devedores.

Lupa na mão

Soube que certos empresários se debruçaram por horas sobre a lista dos devedores de tributos do município. Com os impostos em dia, não estavam obviamente procurando seus nomes ou de suas empresas, mas de alguns concorrentes raivosos, desses que adoram esbravejar contra tudo e todos, especialmente políticos e governantes.

Luiz Henrique

Marcado para o período de 23 a 27 de novembro um evento especial, na UFSC, em homenagem a Luiz Henrique Rosa, grande músico catarinense que brilhou no plano nacional e internacional. Em 2015 faz 30 anos que ele morreu num acidente automobilístico. Em 25 de novembro completam-se 77 anos de seu nascimento.

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